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Parto: Uma Dimensão do Gozo Feminino

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Paulo Batistuta Novaes
Claudia Pereira do Carmo Murta

 

 

Fotografias: Paulo Batistuta Novaes
Textos: Paulo Batistuta Novaes e Cláudia Pereira do Carmo Murta
Arte digital, projeto gráfico, diagramação e editoração: Elisa Queiroz
Capa: foto: Paulo Batistuta; arte digital: Elisa Queiroz
Revisão: Eriton Berçaco, Cassiano Bernardes and Laure Ann Chin
Versão para o inglês: Arthur Octávio de Melo Araújo, Iêda Zanotti e Paulo Batistuta Novaes
Impressão: Gráfica e Editora A1
Produção: Secretaria de Estado da Cultura
Ficha catalográfica

 

Aos nossos filhos

Sâmara
Raíssa
Bernardo
Helena
Paula

 

 

Agradecimentos

A todas as mulheres que cederam generosamente estas imagens.
Ao BANDES, pelo patrocínio e pelo seu maravilhoso espaço cultural.
À Secretaria Estadual da Cultura do Espírito Santo pela carinhosa produção.
Ao Hospital Santa Rita, pelo patrocínio e apoio às iniciativas humanizadoras.
À Universidade Federal do Espírito Santo, palco desta efervecência intelectual.
Aos fotógrafos Carla Maria Osório e Tadeu Bianconi por alguns conselhos.
Às Drªs Delza Lúcia Marin Menezes e Maria da Penha de Mattos Nascimento, médicas neonatologistas do Hospital Santa Rita, que souberam compreender a realização desta iconografia.
Às secretárias Tiana Menezes dos Santos e Eliana do Carmo Emílio.
À Bianca Newlands, pelo apoio na produção.

 

 

Desenvolvimento e Cultura

Felizmente já vai longe o tempo em que se pensava e se implantavam ações de “desenvolvimento” completamente divorciadas de ações culturais. Normalmente, quando se pensa em desenvolvimento, a associação mais fácil de se fazer é com desenvolvimento econômico, e o desenvolvimento econômico dessa faixa de terra com 45.733 quilômetros quadrados entre o Norte do Estado do Rio e o Sul da Bahia é a própria razão da existência do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo – Bandes.
Neste período administrativo 2003/2006, tentamos avançar um pouco, agregando o conceito desejável e imperioso de sustentabilidade à missão original de desenvolvimento econômico do Bandes, levando o crédito até a empreendimentos informais e colocando literalmente a cara na rua, com a criação do Espaço Bandes de Atendimento ao Cliente, no térreo do edifício Caparaó, centro de Vitória. Longe de ser apenas uma maquiagem, o lançamento de uma nova logomarca no final de 2005, com design mais leve e moderno, reflete nossos esforços em implantar processos operacionais também mais leves e rápidos e que vão ao encontro das necessidades dos clientes.
É no bojo dessas mudanças que nos propusemos um desafio - destinar parte do Espaço Bandes de Atendimento ao Cliente a mostras culturais. Para fazer bonito, fomos buscar parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e aqui estamos inaugurando hoje esse espaço com a exposição de fotos do médico/fotógrafo Paulo Batistuta, que aborda um tema no mínimo instigante – “Parto – uma dimensão do gozo feminino”. Não é por acaso que a mostra está sendo aberta no Dia Internacional da Mulher.
Mas voltando ao tema do início do texto, buscar o desenvolvimento e esquecer a cultura é oferecer a nós mesmos oportunidades limitadas.
Falando do ponto de vista antropológico, pode-se e deve-se considerar cultura todas as formas de expressão humana, inclusive a economia, a política e a ciência; não só as artes cênicas, plásticas e tantas mais. A cultura, então, abrange tudo.
Como desenvolvimento econômico é o nosso negócio, sabemos que sem ele perde-se qualidade de vida, segurança, poder e independência. Mas, como disse Jorge Wertheim, representante da Unesco no Brasil em 1998, “uma nação desenvolvida, rica, independente, poderosa, é, antes de tudo, uma nação culturalmente pujante, com forte identidade cultural”. Com a abertura desse espaço para mostras culturais, o Bandes expressa sua crença de que a cultura deve ter um lugar de destaque na agenda de discussões sobre desenvolvimento.

Haroldo Corrêa Rocha
Diretor-Presidente do Bandes
Vitória, 08 de março de 2006

 

 

Depoimento de Neuza Mendes (Secretaria de Estado da Cultura)

Diante de uma obra de arte todo indivíduo é um voyer. A exposição denominada Parto: uma dimensão do gozo feminino traz para o público uma série de fotografias dos momentos finais da gestação, manifestando como ponto comum as expressões singulares da sensação que resulta do transe experimentado por diversas parturientes. O ensaio, que não evidencia nenhuma orientação erótica, vale tanto quanto um conjunto de peças documentais quanto como um arranjo de obras de arte. A autoria do médico e fotógrafo Paulo Batistuta configura reflexões sobre o princípio da vida, sobre o estatuto da arte e sobre os meandros, às vezes sutis, às vezes ávidos que esta é capaz de percorrer para interpretar o nascimento.
Respeitando a individualidade de cada fotografia exibida o conjunto formado problematiza e potencializa representações estabelecidas não apenas sobre o parto e o nascimento, mas também sobre discursos como a medicina, a psicanálise, a antropologia, a filosofia e a arte.
O Banco do Desenvolvimento do Espírito Santo, por meio de seu novo Espaço Cultural, reafirma o compromisso de apresentar ao público a arte em todas suas manifestações, a riqueza de seus conteúdos e a complexidade de seus significados.

Neusa Mendes
Secretária de Estado da Cultura

 

 

Palavra do Autor - Paulo Batistuta Novaes

Esta exposição de fotografias foi idealizada para comemorar o Dia Internacional da Mulher, na cidade de Vitória, em 2006. Nada mais fantástico, intenso e explicitamente feminino que a maternidade. Portanto, mostrar o parto é uma forma de celebrar o feminino na sua maior pujança.
Dentro desta ampla temática o parto humano_ escolhemos enfocar um assunto em especial: o parto como uma experiência de gozo feminino. Com todas suas dores e dificuldades, o parto natural oportuniza à mulher um mergulho em si mesma e, portanto, cria uma condição única de autoconhecimento, uma experiência singular.
Vários elementos ambivalentes contribuem para que um gozo feminino seja vivido na parturição. De um lado, as dificuldades inerentes que podem ser representadas pela dor, pelo medo do desconhecido, pelo temor de fracassar, de morrer ou de ficar seqüelada. Por outro lado, o desejo decidido de viver a experiência, de conhecer seus limites e superá-los, de parir por seus esforços, de ser mulher.
Todavia, a idéia do parto natural ainda não faz parte da cultura brasileira. Entre nós, a Medicina tem sido freqüentemente exercida para atender apenas as necessidades do corpo, segundo a moderna dicotomia do Ser Humano em corpo e alma, reiterando uma atenção em saúde eminentemente tecnocrática, portanto desumanizadora.
Como corolário desta compreensão tecnocrática da vida social, e conseqüentemente da Obstetrícia, uma série de procedimentos impropriamente utilizados, ineficazes ou até mesmo prejudiciais ocorrem freqüentemente nos partos de nossas mulheres, no nascimento de nossos filhos, condicionando elevadas taxas de morte e morbidade materna e perinatal (dos bebês), além de inúmeros transtornos de ordem psíquica, muita tristeza evitável.
Acreditamos, no entanto, que não precisa e não deve ser assim. Parto e nascimento devem ser vividos pela mulher, por seu companheiro, por seu bebê, pelos familiares enfim, como uma experiência sexual e familiar, sobretudo íntima profunda, reveladora.
Maior que nossa crença pessoal são os progressos científicos que apontam o parto natural como o mais seguro para a mãe e seu bebê.
O objetivo desta exposição é mostrar fantásticas expressões de gozo durante o processo de parturição.

Paulo Batistuta Novaes
Março de 2006

 


Moema, 29 anos, educadora física, teve este seu primeiro filho com 41 semanas e 5 dias de gestação, no dia 28/10/2005, às 06:33 horas, após 7 horas de trabalho de parto. Sua mãe foi sua doula. Seu marido também acompanhou toda a parturição e cortou o cordão umbilical. Seu bebê nasceu com 3.140 g, Apgar 10/10, na suíte de parto e ela não apresentou laceração perineal.

Damaris, primigesta, 31 anos, médica. Sua proposta era parto domiciliar, mas como teve um trabalho de parto muito prolongado preferiu ir para o hospital. Sua bebê nasceu no dia 25/11/2004, às 20:40 horas, com 3.390 g na idade gestacional de 41 semanas e 5 dias, após 26 horas em fase ativa de trabalho de parto.

Nilce Ana, 39 anos, assistente social. Havia passado por duas perdas gestacionais anteriormente, com grande dor. Seu parto foi no dia 21/12/04, na 40ª semana de gravidez. Após 24 horas de contrações seu bebê nasceu na suíte de parto, com 3.995g, Apgar 10/10. Teve por acompanhantes seu esposo, sua irmã e uma doula.

Ana Cristina, 31 anos, pedagoga, teve este parto normal 9 anos após uma cesariana. Sua filha nasceu em 09/09/06, na suíte de parto, na 40ª semana de gestação, com 3.420g, Apgar 10/10.

Alixandra, educadora física, 24 anos, teve este seu primeiro parto em 05/10/05, na 41ª semana de gestação, após 20 horas de trabalho de parto. Sua bebê nasceu na suíte de parto, com 3120 g, Apgar 10/10.

Maria, 36 anos, contadora. Este garoto que aparece na foto é seu primeiro filho, de 5 anos de idade, nascido de parto normal. Ele, que participou das consultas de pré-natal, pediu para participar também do parto. Seus pais então lhe colocaram uma condição: antes ele deveria assistir um vídeo com cenas explícitas sobre parto, numa perspectiva humanística (Sagrado, 2002). E depois de tê-lo assistido, este menino escolheu estar no nascimento de seu irmão. O bebê nasceu na suíte de parto, após 8 horas de trabalho de parto, no dia 16/08/2005, às 06:05 horas, com idade gestacional de 40 semanas e 6 dias e seu Apgar foi 10/10.

Andressa, 26 anos, primigesta, administradora. Sua gestação foi normal. Seu filho nasceu no dia 24/03/05, à 07:57 horas, após 20 horas de parturição, na idade gestacional de 37 semanas e 3 dias, com 2.895 g e Apgar 10/10.

Rogéria, 22 anos, primigesta, estudante. Sua gestação foi normal. Ela desejou parto normal até o 5º mês de gestação, mas após ser informada do óbito intra-uterino ocorrido naquela ocasião com uma prima sua, desistiu da idéia pela pressão familiar. Quando estava com idade gestacional de 39 semanas e 1 dia, chegou à maternidade com a bolsa das águas rota há algumas horas, febre de 40ºC devido a sinusite, franco trabalho de parto e dilatação do colo uterino de 5 cm. Foi aconselhada ao parto normal, acolhendo a proposta. Seu bebê nasceu no dia 21/06/2003, às 08:07 horas, com 3040g, Apgar 10/10. Não foi realizada episiotomia e ela não apresentou ruptura perineal. Sua acompanhante foi sua mãe.

Silvania, 31 anos, bióloga, primigesta, teve seu bebê acompanhada de sua irmã e de uma amiga. Seu bebê nasceu depois de 10 horas de trabalho de parto induzido, uma vez que teve ruptura da bolsa das águas sem subseqüente contrações uterinas. Ela recebeu analgesia aos 5 cm de dilatação cervical, mas ao nascimento o efeito analgésico já havia terminado, de modo que experimentou todas as sensações do parto. Seu bebê nasceu no dia 10/10/04, às 19:05 horas, com 3.490 g e Apgar 10/10.

Criatiane, 26 anos, fonoaudióloga. Este foi seu segundo filho de parto normal, cuja parturição durou 12 horas. Seu bebê nasceu no dia 14/09/2005, às 10:37 horas. Sua acompanhante foi sua irmã, R.A O B., que pariu no mesmo hospital, cerca de 12 após e também figura nesta exposição. Por sua vez, C.A.D também amparou a irmã. Seu bebê nasceu com 2.700 g, com Apgar 10/10, não foi realizada episiotomia e não ocorreu laceração perineal alguma.

Rosiane, 38 anos, dentista. Este parto ocorreu na suíte de parto às 23:53 horas, no mesmo dia e na mesma maternidade em que sua irmã C.D.A , que também figura nesta exposição. Aliás, foi amparada por esta última, que já se sentia bastante recuperada de seu parto, ocorrido 12 horas antes. Seu bebê esteve em apresentação pélvica (assentado) até o dia de seu nascimento; por isto foi realizada versão externa e ele pode nascer saudável, como suas duas outras irmãs, no dia 14/09/2005, com Apgar 8/10, 3.300 g.

Mônica, 35 anos pariu em 19/05/03. Sua bebê nasceu com 3050g, Apgar 10/10, na 40ª de gestação, três anos após seu primeiro parto, também normal. Seu plano inicial era parir de cócoras, mas na hora do parto, deitada sentiu-se melhor.

 

 

Um Homem

Mulher parindo: nada mais genuinamente feminino. Nada mais estranho também. Sim, isto mesmo: estranho. Era assim que eu via, anos atrás. Eu era um aluno de medicina iniciante na maternidade, quase um leigo... Eu tinha o olhar de quem contemplava a concretização da vida entre nós e encarava aquilo tudo mais poética que tecnicamente. Notava mais o aspecto sagrado e ainda não compreendia a mecânica da parturição. Porém, apesar da ignorância de neófito, fascinava-me a pujança de parto e nascimento.
Muitas coisas bastante diferentes me causavam a estranheza; a singularidade do evento, sua enorme carga emocional, o intenso embate. Além disto, sempre notei no ambiente do parto um “não sei o que” diferente, uma energia peculiar, algo no ar... O que gera esta atmosfera eu desconheço, mas vários elementos sempre me chamaram a atenção, logicamente todos centrados na protagonista daquele trabalho: a mulher grávida.

Atitude de mulher
Parindo elas são diferentes. Diferentes em muitos aspectos. Sempre me intrigou vê-las naquelas atitudes corporais mais bizarras, hora agachando-se ou encolhendo-se no leito; outras vezes, esticando-se todas. Algumas preferem o chuveiro quente por longos e intermináveis minutos, imitando a monotonia do ritmo das contrações. Em alguns momentos escolhem caminhar, caminhar e caminhar para logo a seguir permanecerem inertes, impassíveis, desafiadoras. Se preferem o toque suave na pele ou uma vigorosa massagem ou então contato corporal algum, ah! só perguntando a elas na hora...

Metamorfose
Eu percebia também odores femininos que existem unicamente na parturição. Suores e mais suores. Secreções que afloram da genitália, às vezes torrencialmente. Um calor cutâneo típico mesmo no inverno. E parecia-me que as mulheres em trabalho de parto ficavam maiores, que suas dimensões aumentavam. Não, não estou dizendo que elas ficavam gordas. Mas parecia que elas ficavam maiores, bem maiores que os limites de seus corpos. Falas entrecortadas e até mesmo desconexas. Aqueles suspiros entremeados por gemidos, a respiração arfante e rápida... os gemidos durante as contrações cedendo lugar ao silêncio ao término delas, quando sobrevém o repouso muscular, o estado de relaxamento , um abandono natural. Olhos fechados, boca entreaberta, respiração lenta e profunda. E um novo ciclo minutos após. As suas expressões faciais lânguidas, distantes, lembrando um abandono do corpo e uma introspecção profunda...

Transe
Com o tempo fui percebendo que lhes sucedia, mesmo que em silêncio, uma intensa atividade psíquica. A contagem do tempo não é agora baseada no relógio, mas na sua própria lógica, que pode ser lembrada pelas palavras desejo, determinação, gratificação. Um rebaixamento da consciência concomitante a uma superficialização de algo do inconsciente, configurando um intenso confronto íntimo. De um lado, o desejo decidido de parir essencialmente como feminina, de conhecer seus limites e superá-los todos, de parir por seus esforços, de ser mulher. E, por outro, o medo e todos os demais fantasmas que povoam os recônditos de cada uma. E quantos são estes fantasmas... eles podem ser representadas pela dor, pelo medo do desconhecido, pelo temor de fracassar, de morrer ou de ficar seqüelada ou, pior ainda, de que algo ruim suceda a seu bebê.

Sagrado
Também sempre achei curioso como a nudez das parturientes evoca o sagrado e não o erótico. E como mulheres pudicas e recatadas ordinariamente se desnudam naturalmente na presença de seus maridos e dos prestadores de assistência à parturição. Algumas tantas, felizes até, realizadas por serem fotografadas.

Estética
Outro encantamento pelo parto decorre de sua estética. Como ela afeta nosso imaginário! Aquele bebê parece enorme para as dimensões da diminuta vagina, mesmo que ela tenha ampliado enormemente suas dimensões durante a gravidez. Mesmo na sua generosa fartura parece que vagina e vulva não podem suportar aquele passante gigantesco. É fantástico observar o desprendimento da cabeça, que vai progredindo lentamente, centímetro por centímetro, por efeito das sucessivas contrações e pausas de atividade uterina. Os cabelinhos do bebê aflorando ao coroamento. A porção mais caudal da vulva, a fúrcula, distende-se tanto, assumindo a espessura de poucos milímetros, dando a impressão de que irá romper-se, que não suportará a pressão. E o bebê vai saindo, desvencilhando-se do claustro materno, chegando, numa jornada sem retorno. E como é encantador testemunhar a integridade genital mesmo após a passagem de crianças de fato grandes, talvez com mais de quatro quilos.

Coquetel do amor
Este fenômeno complexo envolve corpo e alma, desejo e esforço, coragem e humildade. Configura uma crise e oportuniza gozo. Mas como tudo isto se processa? Eu sempre me perguntava o que causa tamanha revolução orgânica. Como pode a mulher que tem sua inserção familiar, profissional, enfim, como ser social, se modificar tanto seu quando vai ter filho? Que elementos poderosos são estes que remetem as mulheres para uma posição tão distante daquela que apresentam no dia-a-dia?
Sabe-se hoje que, fatores psíquicos e culturais à parte, um “coquetel do amor” inunda as veias das parturientes. Uma combinação de hormônios, neurotransmissores e outras substâncias modulam o funcionamento dos mais diversos órgãos, além de oportunizarem um estado psíquico privilegiado, quiçá um transe. Tudo isto começa a partir do momento que iniciam as contrações do trabalho de parto, popularmente lembradas como as “dores do parto”.
Dores, ai que dores! Não é fácil suportá-las em nós mesmos. Por outro lado, suportá-las em outrem pode ser mais difícil ainda, posto que isto nos remete às nossas próprias e ainda testemunhamos simultaneamente as alheias.

Privacidade e confiança
Com o tempo fui aprendendo que a “natureza” fez tudo isto muito bem. Se existem as dificuldades inerentes, também há possibilidades naturais de enfrentamento para o parto. Desta forma, privacidade e sensação de estar protegida permitem à mulher entregar-se completamente ao processo. E quem será a melhor pessoa para indicar as circunstâncias e circunstantes que mais adequadamente supram estas necessidades senão ela própria?

Gozo
Aquele enorme esforço para viver as dores, cada uma delas, quer as do corpo, quer as da alma... a luta para vencer cada dificuldade, para se ter o bebê nos braços e retê-lo assim, para sempre. A negociação para a saída do bebê. Ah, maravilhosa metamorfose humana! Para a criança, a vida. Para a mulher, um estremecimento, um gemido, estado de consciência peculiar, autoconhecimento. Um êxtase! Gozo.

Homem que goza ao parto
Quão sedutor é o parto, como é difícil passar indiferente a ele! No início eu nem sequer supunha que parto fosse um evento feminino, um evento sexual, riquíssimo. Não podia imaginar que nele a mulher pode entrar em contato e externar o seu mais profundo “feminino”. Também, pudera eu saber destas coisas ainda na escola!
Mas por que eu não poderia? Como ter uma visão ampla das humanidades envolvidas no parto se ortodoxa é a sociedade e, assim como ela, as escolas de Medicina. Além disto, desde a Idade Moderna exaltou-se o fascínio pelo tecnológico, quando o protótipo do homem moderno passou a ser incorporado pelo homem-máquina. Homem sem alma. Homem sem tempo. Corpo sem Ser. Desde então, vive-se um esquecimento da integralidade do ser humano, que apresenta emoções e que tem aspirações de felicidade e reconhece sua característica de ser mortal. Não é de se espantar que eu não houvesse sequer sido apresentado a estes temas, lá nos meus tempos de escola. Que dizer então sobre conhecê-los.

Olhar
Mas então, o que nos resta quanto ao gozo no parto, a nós médicos do gênero masculino se recebemos uma “formação incompleta”, pois que sistematicamente desconsidera-se o sujeito na abordagem médica tradicional? Estaríamos, porventura, privados de partilhar estes momentos, mesmo que com nossas parceiras, mães de nossos filhos?
Resta uma saída: olhar, simplesmente olhar! Olhar pela lente fotográfica. Olhar com desejo de entender. Olhar e ter escuta. Desprover-se da miopia da alma. Olhar e estudar. Olhar e dar-se, dar-me. Dar-me, compartilhar compassivamente. Na condição de parteiro posso desfrutar discretamente deste momento de beleza exuberante de inúmeras mulheres, de múltiplas famílias.

Androcêntrica
Eu me acostumei a ver mulheres parindo. Pressentia-lhes o gozo, por intuição. Porém eu, médico formado pela cartilha tradicional e hegemônica, ou seja, androcêntrica, hospitalocêntrica, iatrocêntrica, tecnocrática, desumanizadora, portanto, não compreendia dimensões maiores que a mecanicista para parto e nascimento. Além do mais, sendo homem, quer dizer, ostentando uma estrutura anatômica e psíquica masculinas, como poderia eu compreender o estritamente feminino presente nos partos?

A palavra, a arte
Se não posso compreender completamente, pelo menos ver eu posso. Olhar mulheres, observá-las. Além disto, ainda por outros caminhos que surgiram em minha vida, como o encontro com a filosofia, com a psicologia, com a arte. De qualquer forma, agora mais maduro eu percebo um pouco mais amplamente o que parto é para a mulher. Mesmo assim, há quem possa, muito melhor que eu, discorrer sobre este tão fascinante gozo feminino. Quem, senão uma mulher que pariu e, por isto mesmo, tem autoridade no assunto? Melhor ainda, se esta mulher for filósofa, psicanalista?


Uma Mulher

Tendo nascido no ano de 1967, pertenço a um período do desenvolvimento da humanidade no qual a condição feminina e os direitos da mulher passam a ser temas de manifestos de toda ordem. Esse contexto cultural facilitou o desenvolvimento de uma questão que me acompanhou desde sempre e que diz respeito à posição feminina. Eu sempre tive esperança de encontrar um espaço para o que é efetivamente feminino nesse mundo. Toda a minha caminhada intelectual foi direcionada no sentido de oferecer uma resposta para essa questão que me impulsiona desde a adolescência. O encontro com o pensamento do psicanalista francês Jacques Lacan foi fundamental para a concepção de uma conjectura possível.
Em 1975, no auge dos manifestos pela revolução sexual, Lacan propõe que “a mulher não existe” e “a relação sexual é impossível”. Tais proposições parecem vir em contra-corrente à onda que agita as idéias na conjuntura social. Contudo, mesmo não seguindo o movimento, esses enunciados delineiam um lugar possível para a posição feminina. Para Lacan, a posição sexual não tem relação com a adequação genital do ser humano. No seu entender, tanto o homem, quanto a mulher podem ocupar posições, tanto masculinas, quanto femininas no mundo, independentemente da sua própria escolha sexual objetal. Sendo assim, um homem, por exemplo, que ocupa uma posição feminina não é necessariamente homossexual. Não obstante, Lacan não reivindica para as mulheres uma posição masculina, como acontecia no movimento revolucionário da época. Para ele a mulher não existe na ordem do discurso masculino, pois o masculino só responde ao masculino. Desse modo, não há equivalência entre as posições sexuais e é assim que a relação sexual se torna impossível. Ele não propõe uma equivalência sexual, mas indica que uma saída possível para a discriminação sexual é o reconhecimento, por ambos os gêneros, da diferença da posição feminina. A posição feminina diferindo-se da posição masculina não se faz acessível pelas vias do masculino. Assim, a feminilidade só se faz acessível para quem se posiciona efetivamente a partir do feminino. Lacan nomeia como gozo feminino, a forma de acesso à feminilidade. Algumas das condições de manifestação do gozo feminino foram analisadas por Lacan. De minha parte penso que uma condição possível para que a feminilidade possa ser reconhecida se apresenta no instante do parto vivido de modo natural.
Desde o período que preparava a minha tese de doutorado sobre as condições de manifestação do gozo feminino, sempre suspeitei que o parto natural ofereceria um espaço de condições possíveis para que algo de efetivamente feminino pudesse se manifestar. A ocasião de testar minha hipótese surgiu com uma gravidez. No entanto, minha primeira gestação não foi corroborada com um parto natural. Uma segunda gestação me deu a oportunidade de passar por essa experiência. No planejamento do parto, eu me lembro claramente de dizer que não queria anestesia. De forma alguma eu perderia aquela chance uma segunda vez. Desse parto, eu me lembro pouca coisa, me lembro que em um momento intenso de dor, eu pensei que tinha entrado numa grande fria; mas o que eu me lembro mesmo, sem nenhuma sombra de dúvida, é que eu gozei muito. Foi o mais intenso gozo de toda minha vida. Só consigo dizer isso. Lacan afirma que, do gozo feminino, as mulheres não dizem nada. Apenas aquelas que experimentam sabem que experimentaram e, quanto ao resto, não têm mais nada a dizer. É realmente assim, nada há a ser dito sobre o gozo feminino.
Quando o meu parteiro me perguntou sobre a minha experiência de parto, eu lhe disse que tinha gozado muito. Ele ficou horrorizado e disse que isso não tinha como acontecer. Eu me calei diante daquela manifestação de ignorância e tive a real sensação da impossível relação entre os sexos. Ele não poderia entender; como entender algo que não pode ser dito, mas apenas vivido? Um dia me mostrou um vídeo, idealizado por ele para discutir o tema da dor com anestesistas, no qual se apresentavam dois partos naturais. Ao visualizá-lo, percebi a manifestação do gozo feminino. Graças a essa mostração, pude transmitir o que tinha tentado dizer anteriormente sobre a experimentação do gozo feminino. Já que esse gozo não se transmite pelo dizer, pode ser mostrado. Lacan comenta sobre a visualização do gozo feminino na estátua de Santa Tereza D’Ávila feita por Bernini. Com base nesse comentário lacaniano, eu sugeri que fizéssemos uma pesquisa a partir de registros iconográficos do gozo feminino presentificado no momento do parto natural; ele aceitou e começou a registrar os partos. Pedi financiamento a uma agência de fomento para pesquisas e recebi uma resposta negativa de um parecerista horrorizado que, dentre muitos adjetivos, perguntava sobre a relevância de uma tal pesquisa. Penso que o horror manifestado parecerista é da mesma ordem subjetiva que o horror manifestado inicialmente parteiro, pois a admissão da manifestação desse gozo causa muito incômodo; esse estranhamento é ainda aumentado quando admitimos a presença desse gozo no parto. Sobre a relevância de uma tal pesquisa, posso garantir que o fato de encontrar um espaço preciso de manifestação da feminilidade tem conseqüências sociais e políticas extremamente importantes, além das conseqüências subjetivas e familiares. A pesquisa ainda carece de fomento, mas o registro iconográfico está sendo apresentado.
As fotos retratam mulheres em trabalho de parto adiantado, na fase de transição e em período expulsivo. Elas buscaram captar os instantes de gozo vividos nesses momentos por essas mulheres. O princípio é o de seguir a movimentação do gozo entre tensão, desprazer e alívio da tensão. A teoria do gozo tem base no que Sigmund Freud nomeia como o que está além do princípio do prazer. Gozo e Prazer se freqüentam, mas se distinguem. Freud nomeia como teoria das pulsões aquilo que está além do princípio do prazer, algo que se origina no corpo e responde psiquicamente. A pulsão é apresentada como uma energia constante, intrínseca e interna ao organismo que exige uma satisfação obtida apenas a partir de um encontro com um objeto externo. A pulsão é uma exigência de satisfação a partir da qual todo alívio obtido é parcial, pois o objeto não é jamais suficientemente atingido para a satisfação total. A diferença entre a satisfação exigida e a satisfação obtida mantém a pulsão constante em sua exigência. Tendo em vista que a satisfação da pulsão é parcial, a tendência do prazer é a diminuição, pois a exigência de satisfação é sentida como desprazer. Para Freud, o excedente entre a exigência de satisfação e a satisfação obtida manifesta algo que escapa ao princípio de prazer, que está além desse princípio e que o domina. Isto que está para além do princípio do prazer – a fatalidade de uma satisfação jamais alcançada e sempre almejada – é o que Jacques Lacan nomeou como gozo.
No trabalho do parto, quando a dilatação do colo do útero vai bastante adiantada, as dores das contrações já causam grande incômodo. Então muitas mulheres reclamam da intensidade destas dores, sendo que algumas não as suportam e desesperam. É quando algumas solicitam um alento externo, como anestesia, por exemplo. Mas com a evolução natural do trabalho de parto, várias substâncias protetoras contra a dor, como hormônios e neurotransmissores, produzidas pelo próprio organismo feminino, tais como endorfinas, ocitocina, prolactina, adrenalina, noradrenalina, dentre outras, vão se tornando presentes no sangue e, numa quantidade tal, a ponto de contribuírem para que ela possa suportar as dores. Para que estas substâncias causem um efeito sedativo, é necessário que a mulher se entregue ao comando de seu cérebro primitivo, abdicando dos controles e estímulos típicos da vida de relações cotidianas, controladas por seu neocórtex. Os neurotransmissores e hormônios remetem-na a um estado anômalo de consciência, ou seja, a um transe, evidenciado por várias fotografias apresentadas neste trabalho. Como um desdobramento natural deste transe, pode ocorrer o êxtase. O desprazer, o transe e o êxtase caracterizam, todos eles, momentos do gozo. Para que se atinja o êxtase, é necessário que continuem os estímulos fisiológicos da parturição, como a compressão do reto pela cabeça do feto e a presença das dores das contrações. Assim quando chega o período expulsivo, ou seja, quando a dilatação do útero está completa e o bebê começa sua descida pelo canal de parto, então o estado de transe já se encontra bastante aprofundado, o que pode ser notado pelas expressões de embriaguez evidenciada nas mulheres retratadas. Nesta hora, é comum sobrevir uma tranqüilidade súbita, um estado contemplativo, um abandono de sua dimensão corporal. Algumas delas conseguem evoluir rapidamente no transe e a expulsão do bebê é mais rápida e, também, ao que parece, gozam mais facilmente. Nesta hora, conseguem um poder que não pode ser concedido por outrem, mas apenas tomado por si mesma - senhora de si.
Como desse gozo nada se pode dizer, podemos percebê-lo por sua manifestação corporal. Já que o gozo feminino não entra no campo da linguagem, dessa forma não tem representação possível. O seu acesso torna-se viável pela experiência, podendo ser percebido através do desprazer, do transe e do êxtase. Escapando ao que pode ser dito, porque está fora do campo do simbólico, a constituição do ser mulher traz em si mesma a constituição de um mistério. Todavia, é no desvelamento do gozo feminino, como no trabalho de parto, que essa constituição enigmática se evidencia. Um parto no qual a mulher pode apresentar condições de expressar a sua feminilidade, faz valer o seu gozo, único de ser mulher.

Claudia Murta e Paulo Batistuta
Vitória, março de 2006.

 

 

 

Os Autores, o Trabalho

Paulo Batistuta Novaes é médico desde 1988, mas já se interessava pela humanização do parto ainda na faculdade. Em 1990 concluiu residência em Ginecologia e Obstetrícia. Em 1996 tornou-se obstetra da Maternidade do Hospital Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo, da qual veio a ser chefe entre 1999 e 2003. Em 2002 produziu e dirigiu “Sagrado – Um vídeo educativo sobre humanização do parto e nascimento à luz das recomendações da Organização Mundial da Saúde”. Em 2003 concluiu mestrado em Medicina e no ano seguinte iniciou na docência. É membro da diretoria da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento - ReHuNa e tem a experiência de quase 6.000 partos.

Há 5 anos, iniciou um intenso diálogo sobre as implicações do parto para o feminino, quando estabeleceu parceria acadêmica com a Profª Cláudia Murta, doutora em Filosofia, Psicanalista, professora do Departamento de Filosofia da UFES e coordenadora de pesquisa do Núcleo de Educação Aberta e a Distância da UFES. Destes colóquios resultaram uma série de atividades, culminando no curso de extensão universitária e livro de mesmo nome: “Dimensões da Humanização: Filosofia, Psicanálise, Medicina” (2005) do qual ambos são co-autores.

Paulo Batistuta desenvolve este olhar fotográfico desde 2002 e já registrou a parturição de quase 80 mulheres, mais de 6.000 fotografias. Não se trata de um fotógrafo profissional, mas de um médico humanista preocupado com a educação.

Estas mulheres procuraram o autor em sua clínica privada. O pedido de fotografá-las foi feito por ele próprio quando o julgou adequado ao temperamento e à conjuntura emocional, ainda no pré-natal. Algumas recusaram o pedido; outras, em contra-partida, sabendo deste seu interesse, solicitaram-lhe que as fotografasse. Alguns cuidados foram tomados para não atrapalhar a evolução do parto ou o bem-estar do bebê: não utilização de flash, restrição de ruídos e de movimentação extra no ambiente do parto. Em várias ocasiões o registro fotográfico foi sacrificado em benefício de um bom e seguro parto. Todas mulheres receberam suas fotos e algumas lhe concederam o direito de imagem para atividade acadêmica. Por este trabalho o autor não recebeu remuneração.

 

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